Detalhe do Inferno de Dante, por RodinAo longo da vida vamos acumulando memórias que determinam a nossa identidade e o que sentimos perante os acontecimentos a que chamamos “vida”.
Numa espécie de ”descida ao inferno”, a minha memória tem interferido, quase diariamente, na relação com aqueles que me são mais próximos. Tenho lembrado momentos que deveriam ocupar as camadas mais subterrâneas da minha mente. Essas memórias pairam, como nuvens carregadas, na minha mente e não me deixam discernir a realidade doutra forma. Angústia, tristeza, mais angústia, mais sofrimento, mágoa, inquietação, mais amargura, ansiedade, frustração, desilusão… E os dias vão passando sem conseguir psicanalisar tais sintomas. Os outros (ou quase todos os outros) representam a minha incapacidade de ser outra, a saudade do que passou e o pesar de não poder mudar nada. De não poder mudar o passado, de não poder mudar o presente. De não poder mudar e mudá-los.
O futuro aparece sempre ensombrado pelas memórias do passado e pelas contingências do presente. O futuro que é amanhã e que consiste na permanência no purgatório, na expiação impossível dos pecados cometidos. A luz do inferno ilumina esta caminhada, cada vez mais solitária, em direcção a um paraíso inexistente.