domingo, 19 de julho de 2009

Disfunção

O Grito, E. Munch

O ano lectivo está a chegar ao final. No entanto, tenho trabalhado tanto, que desenvolvi uma espécie de disfunção – disfunção psiconeurótica (a palavra é assinalada como erro e depois de uma pesquisa para precisar o seu significado, fiquei ainda mais neurótica, ou devo dizer, esquizóide, obsessiva–compulsiva, etc.) de pânico de férias. De uma forma mais simples, tenho medo de ficar de férias.
Medo de não saber o que fazer ao tempo livre de que vou dispor.
Medo de me confrontar comigo própria.
Medo de pensar, de pensar naquilo que me magoa e me angustia.
Medo de não saber estar tanto tempo com as pessoas cá de casa.
Medo dos momentos de tensão a que não posso virar as costas dizendo - “vou trabalhar”.
Medo da minha inflexibilidade perante alguns comportamentos recorrentes.
Medo de me sentir asfixiada.
É importante explicar. Trabalhar tem sido para mim uma espécie de terapia. Quando estou a trabalhar sinto uma espécie de liberdade, de autonomia, que por várias razões (algumas são óbvias para aqueles que me são próximos) não sinto quando estou em casa. Em casa deparo-me com as limitações e constrangimentos circunstanciais e com os quais tenho lidado muito mal. Não me apetece ser mais precisa. Podia tornar-me inconveniente. Nada que não faça parte da minha essência, mas neste caso prefiro evitar. A trabalhar não sinto que estou a realizar “a minha obrigação”, “o meu dever”, sinto que tenho o privilégio de fazer coisas que me dão prazer.
Medo do vazio. Medo do vazio.
Esta disfunção, esta incapacidade de me sentir compensada e consolada com momentos de lazer, assusta-me e preferia não ter de a reconhecer. A análise psicológica da situação é demasiado fácil de fazer. Não é necessário ter conhecimentos profundos em psicologia. E, ao contrário da generalidade das pessoas, necessito, talvez de um ansiolítico para reduzir a ansiedade resultante da aproximação das férias.
Esta semana estou naturalmente medicada. Muitas horas de trabalho por dia. A minha funcionalidade será testada e posso, assim, adiar a tal disfunção que prefiro nomear por PDF.

domingo, 5 de julho de 2009

Vícios

Coloured_Smoke, Photography by Graham Jeffery

Tenho imensos vícios e imensas dificuldades em ordená-los por ordem de importância. Tem dias que vão ocupando lugares diferentes numa hierarquia que depende essencialmente do meu estado de espírito. Mas o primeiro, o que está em primeiríssimo lugar, é sem dúvida fumar. Maldito vício que me vai matar, um dia…
Tenho o vício de gostar de pessoas que acho que não me merecem (importante juízo de valor, a meu respeito, claro!, porque tenho esta mania de não me consolar com o que a “vida”, caridosamente, me dá e daí a “Angst”, uma angústia resultante da consciência de que valho mais, muito mais, do que aquilo que, acidentalmente, me vão oferecendo). Vivo numa espécie de ansiedade constante à espera de sinais que correspondam aquilo que espero dos outros. A minha exigência elevada resulta numa frustração sofrida e sentida que me deixa inquieta e de péssimo humor. Este último aspecto tem piorado com a idade e receio bem que esteja a tornar-se um vício. Há dias que ocupa o primeiríssimo lugar do pódio e fico com um aspecto de Vasco Pulido Valente, ainda sem a voz rouca etilizada de fumo (ainda não tenho o vício de beber).
Também tenho vícios supostamente saudáveis. Tenho o vício de ler. Mas as preferências levam-me sempre para leituras que agudizam a existencial angústia. A única vantagem é que o sentimento de solidão fica atenuado. Afinal não estou só! Afinal o que sinto padece de uma espécie de universalidade humana. Apesar de só uma pequena percentagem de humanos perder tempo a pensar naquilo que lhe pode provocar uma tal angústia que os leva a desistir de viver. A leitura pode ser, nesta perspectiva, muito prejudicial à saúde. Pode até matar mais depressa que o tabaco. Por isso defendo que alguns livros deveriam ter nas capas avisos semelhantes aos que aparecem nos cigarros “Ler prejudica gravemente a saúde e a dos que o rodeiam”. Parece-me que esta preocupação com aqueles que rodeiam os leitores viciados devia ser levada mais a sério. Muito do meu mau humor resulta da constatação literária de que a vida é uma merda. Quem tem o vício de ler Philip Roth sabe ao que estou a referir-me. E o Roth é um mero exemplo. Há outros. Stig Dagerman, por exemplo. David Lodge tem a particularidade de nos apresentar situações verdadeiramente hilariantes para nos transmitir a mesma ideia – a vida é uma … Ainda assim tem a vantagem de nos fazer rir com vontade antes de ficarmos angustiados. Pode parecer paradoxal, mas o sarcasmo tem muito de deprimente.
Tenho o vício de ouvir música quando conduzo. Até aqui nenhum problema. Este advém do volume que necessito para conseguir concentrar-me na música e desfrutar. A maioria das vezes, alheio-me e não consigo estar atenta à condução. Até hoje não houve nenhuma situação “perigosa”, tirando o facto de o carro poder explodir e eu não dar por nada. Já aconteceram algumas situações caricatas, que poderiam ter resultado em problemas sérios, para mim e para os outros. Também este pode ser um vício perigoso.
Mais vícios – da limpeza, da arrumação, da justiça, da verdade, da… Há dias em que todos se vão sucedendo a um ritmo verdadeiramente alucinante, por uma ordem que nem consigo descrever, e que me fazem sentir como uma “toxicodependente” ciosa de encontrar o seu espaço de arrumação e capaz de organizar todos os estacionamentos num raio de n kms quadrados.
Tenho muitos mais vícios que ainda não analisei devidamente e, por isso, não me atrevo ainda a apresentá-los. Mas sei que, relativamente a alguns, tenho de adoptar uma atitude mais cuidadosa, antes que estes passem a dominar um “eu” já fragilizado por admitir a existência de “vícios”.
Preciso de terapia. Mas sei que me vou viciar no tratamento…