domingo, 31 de maio de 2009

Caos Calmo


Um filme pode salvar-nos? Um filme pode salvar-nos da dor da perda? Talvez. Talvez por mais um dia. Talvez enquanto perdurar o turbilhão de emoções que despertou.
Nanni Moretti. Pietro. Um homem. A dor. O caos. E, no entanto, a beleza da quietude enquanto espera. Enquanto ouve os problemas dos outros e assume o amor. A filha.
O título define o próprio sentir da narrativa. Um homem que perante o caos pára e observa. Sentado num banco de jardim observa as pequenas coisas que dão sentido à vida. Sentado, enquanto espera que a filha saia da escola, procura um sentido, o sentido. O sentido para a perda, o sentido para a dor.
Perante a fragilidade da vida, ausenta-se do mundo e é mero espectador. Procura a perspectiva correcta para poder voltar a viver. É este compasso de espera que permite a salvação, a libertação.
Hoje salvou-me. Salvou-te. Não sei do que precisarei amanhã para me sentir salva. Talvez de amor. Um sinal de amor.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

É bem possível…

Salvador Dalí, Face of Mae West

É bem possível que ela encarasse as coisas de forma demasiado trágica. Isso acontece a muitas pessoas que, quando se sentem de mau humor, se deixam arrastar por essa pequena má disposição e esta vai-se tornando cada vez pior, tal como se rodassem dentro de uma carruagem e esta as fosse arrastando cada vez para mais longe. Não há qualquer razão para ficarmos insuportáveis só porque, uma vez ou outra, não nos sentimos em plena forma. Não há razão, também, para que nos detestemos só porque, uma vez por outra, ficámos rabugentos. Isso pode bem acontecer, infelizmente, e é muito estúpido da nossa parte. Devemos, pois, tentar achar que a maldade em si é uma coisa má, mas considerá-la bonita enquanto tal, e há nela, de facto, algo de belo, de muito, muito mais belo do que num qualquer rosto de expressão insipidamente amável, como os que aparecem nas fotografias, sem o mínimo valor em si, porquanto constituem um testemunho de falta de experiência de vida.


O salteador, Robert Walser, Relógio D’Água, pp.101

sábado, 23 de maio de 2009

Eu e Eu

Angustia, Salvador Dali

" assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e que me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava. "


Aparição, Virgílio Ferreira

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Quem procuro?

Kandinsky

Quem sou? Tem piada, não me lembro de jamais mo perguntar – quem sou? E desde quando comecei a sê-lo? Deve ser útil sabê-lo, que é que está dentro de mim? para ao menos saber o que vou entregar à morte.
Para Sempre, Vergílio Ferreira

domingo, 17 de maio de 2009

Concordo!


As pessoas só existem no "nós" e têm dificuldade em existir individualmente. E transmitem isso de todas as maneiras! O Stig Dagerman tem um livro chamado A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer. Todos precisamos de consolo, e este consolo tem pouco de sexual (ainda que, na nossa língua, a palavra "consolado" tenha uma conotação sexual). Penso nela no sentido de conforto íntimo, de satisfação. Às vezes, como não conseguimos descobrir essas formas de consolação amplas, ficamos por formas pequeninas de consolação; entre elas, a sexual. E isto não é desprezar o sexual!, que acho muito importante. Mas não acho que tenha a centralidade que noutras fases da vida lhe damos.



PÚBLICO, 17 de Maio de 2009

Entrevista de Anabela Mota ribeiro a Isabel Leal

Isabel Leal é psicóloga clínica. É professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa). É presença regular em jornais e revistas, onde fala do seu tema. Que é também o nosso tema: o que sentimos, o que somos.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quando a realidade supera a ficção…



“Até mesmo ao último dia, o tom das relações de Herzog com Madalena foi bastante sério – ou seja, ideias, personalidades, argumentos, foram respeitados e discutidos. Quando ela lhe deu a notícia, por exemplo, exprimiu-se com dignidade, naquele seu maravilhoso, poderoso estilo. Vira a questão de todos os ângulos, afirmava, e tinha de aceitar a derrota. Não podiam entender-se os dois. Estava preparada para admitir algumas culpas. Claro que Herzog não se encontrava completamente desprevenido. Mas convencera-se de facto de que a situação estava a tornar-se melhor.
(…) Nesta acareação, na salinha em desalinho, duas espécies de egoísmo estavam presentes, e Herzog, do seu sofá, em Nova Iorque, contemplava-os agora – o dela, triunfante (tinha preparado o grande momento, ia fazer aquilo de que mais gostava, dar um golpe), e o dele, na expectativa, todo convertido em passividade. O que ia sofrer, merecia-o; pecara larga e longamente; merecera-o. Aqui estava.
Na janela, em prateleiras de vidro, encontrava-se uma colecção ornamental de pequenas garrafas de vidro. Pertenciam à casa. O sol tocava-lhes agora. A luz penetrava-as. Herzog via as ondas, as linhas de cor, as barras espectrais entrecruzadas, e especialmente uma grande mancha de branco flamejante no centro da parede, sobre Madalena. Esta dizia: - Não podemos viver juntos por mais tempo.
O seu discurso continuou durante vários minutos. As frases eram bem construídas. O seu discurso fora ensaiado e parecia que também ele tinha estado à espera que o espectáculo começasse.
(…)Herzog, na prisão da sua intimidade (…), imaginava o que teria acontecido se, em vez de ouvir tão atenta e passivamente, tivesse esbofeteado Madalena.(…)
Que sucederia se o tivesse feito? Devia ter-lhe rasgado a roupa, arrancado o colar, esmurrado a cabeça. Rejeitou a violência mental, suspirando. Temia ter secretamente tendência para esta espécie de brutalidade. Mas supondo mesmo que lhe tivesse dito a ela para deixar a casa. No fim de contas, era a casa dele. Se não podia viver com ele, porque não partia? O escândalo? Não havia necessidade de fugir a um pequeno escândalo. Teria sido doloroso, grotesco, mas um escândalo era, afinal, uma espécie de serviço feito à comunidade. Somente Herzog nunca se lembrara, naquela pequena sala de garrafas flamejantes, de se manter firme. Pensava talvez que poderia ganhar pela força da passividade, da personalidade, por ser, afinal, Moisés – (…) – um bom homem, e especial benfeitor de Madalena. Fizera tudo por ela – tudo!”

Herzog, Saul Bellow

sábado, 9 de maio de 2009

Foi com uma rosa amarela que o teu dia começou, ontem


Parabéns filha!
Gostava de ter dito que hoje (foi ontem) é um dia muito especial também para mim. Já tens vinte anos. Vinte anos.

Ainda há pouco tempo, parece tão pouco tempo, dormias no meu colo. Gostavas tanto de colo… Acho que não te dei todo o colo que podia ter dado. Mas, tal como tu hoje, também tinha pouco mais de vinte anos. E não sabia, não sabia tantas coisas…
Estava tão feliz e, ao mesmo tempo, tinha medo. Estava assustada, receosa e tu, tão pequenina, deste-me confiança e coragem. Eu sei que muita dessa coragem se foi perdendo com o tempo. Mas hoje olhei para ti e vi muito do que fui, do que era e de certa forma recuperei a coragem para os dias que estão para vir.
Amo-te filha e quero que sejas feliz, muito feliz e que saibas que estarei sempre do teu lado.

domingo, 3 de maio de 2009

De Mãe para Filha


Obrigada.

Por todos os dias felizes.

Que essa memória paire entre nós como um véu que nos protege de dias “amargos” e de tristezas que às vezes parecem impossíveis de ultrapassar. Que continues determinada e forte para alcançar o teu caminho. Que possas continuar a ser feliz e a amar… e a amar-me.
Com todo o meu amor de Mãe.