Esta velha angústia,
Esta velha angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este pode ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
estou doido a frio,
estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos de loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Qué é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos tivesse um religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia lá em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado?
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto? Raul Brandão
domingo, 21 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Intermitências da vida
Depois de uma longa estadia na gruta necessito de renascer para a vida. Para a vida vivida - monótona, maçadora, violenta, desgastante, opressora, constrangedora, brutal… mas também para a vida sonhada – libertadora, arrebatadora, surpreendente, entusiasmante, empolgante, comovente, alegre…
A tentativa de encontrar um equilíbrio que me permitisse encarar a realidade sem angústias opressoras, saiu gorada. No entanto, sinto-me mais forte, mais capaz de lidar com as “intermitências da vida”. A “mulher-cão” que habita em mim tornou-me ainda mais feroz, mas não tenho mordido, não quero morder…
Quero alcançar a serenidade suficiente que permita aos “outros” aproximarem-se. Sim, não mordo. Ladro. Às vezes com uma ferocidade que até a mim me assusta. Nessas alturas, sou eu que fujo de mim própria. Mas também sou dócil, sou dócil com aqueles que me inspiram confiança, amizade, ternura…
Abri a porta à estranheza da vida. Não quero voltar a fechá-la. Quero simplesmente viver a vida!
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