segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

domingo, 29 de agosto de 2010

Gosto!!!

Pensamentos facebookianos

Esta “coisa” do Facebook conseguiu que despendesse de algumas horas da minha vida numa suposta actividade social. Comecei a compreender o funcionamento da “coisa” e rapidamente consegui “fazer” muitos amigos. 110 é um número redondinho que pretendo aumentar (a minha auto-estima assim o exige). Num contexto “facebookiano” sou uma provinciana principiante com muitas dificuldades em acompanhar este mundo globalizado. Terei ainda de continuar a “cuscar” para que o meu número de amigos se aproxime de algo aceitável  :-)). (Dava uma tese compreender a semiótica destes símbolos.)

O paradoxo existencial, e não virtual, que decorre desta actividade resulta de a maioria destes amigos não serem de carne e osso e não cumprirem a função de amigos. Por outro lado, e não menos paradoxal, aqueles que são pessoas, que se apresentam como pessoas e que, supostamente, cumprem a sua função de amigos - virtualmente, de vez em quando “gostam” do que partilhamos no “muro” dos “gostos” e nós gostamos dos gostos dos outros – estão mais disponíveis do que alguma vez estiveram. Não conheço na vida “real” tamanha disponibilidade para a partilha…

Mais curioso ainda, é quando nos cruzamos com um “amigo facebookiano” – “olha, aquele é meu amigo no FB”! A pessoa que nos acompanha olha aterrada, põe um ar interrogador e, em silêncio, questiona o valor da sua amizade. Mais estranho, ainda, é quando três amigas verbalizam ao mesmo tempo a identificação de um “amigo” comum que curiosamente partilha o mesmo espaço público para jantar, isto é, um restaurante. A desilusão instala-se. O tal “amigo” é uma figura pública reconhecida. Nós somos três seres anónimos. Afinal o FB não nos trouxe nenhuma espécie de reconhecimento e mediatismo. Não há troca de “mimos” e palavras carinhosas. Afinal o nosso “amigo” não nos “liga” nenhuma! Admiração! Desilusão!

Perante esta realidade que decorre destas “amizades” virtuais, só me resta “desamigar” de todos aqueles que não são instituições, museus, bibliotecas, editoras, etc. (o gosto pelos livros é a principal razão para estar activa no FB) e retirar da minha “rede” todos os que, de carne e osso, possam alguma vez cruzar-se comigo e provocarem-me tamanha desilusão. De carne e osso só ficarão os meus AMIGOS e aqueles que de alguma forma fazem ou fizeram parte da minha vida e, por circunstâncias diversas, o FB facilita a partilha da minha amizade, reconhecimento e admiração. Vou continuar “amiga” daqueles em que a probabilidade de me cruzar com eles ao vivo é muito próxima da probabilidade de ganhar o euro milhões (raramente jogo!). Não é fácil, de um momento para o outro, e por causa de um “trauma”, largar esta utopia real onde todos são “amigos” e as possibilidades de ter ainda mais “amigos” é imensamente maior do que a de o meu maior AMIGO me contactar agora (que escrevo estas palavritas na maior das solidões) para me presentear com a sua presença.

A partir de agora a minha actividade vai centrar-se no BOOK e esquecer o FACE! Prometo. Juro. Nem que…

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Angústia dos outros – uma espécie de recensão


A autora começa por avisar que “Este livro trará pouca alegria ao leitor. Não o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer…”.

Fiquei assustada. Li uma dezena de vezes para decidir se devia continuar. Estou avisada na nota prévia que aquilo que procuro na leitura (sou uma leitora muito selectiva) -  consolo - não vou encontrar neste livro.

O abismo sempre me atraiu e continuar a ler “Morte na Pérsia” de Annemarie Schwarzenbach foi, de todo, uma queda no abismo. Acompanhei-a (ou será que foi o contrário?), na sua descida ao inferno de descoberta do verdadeiro ser e, por momentos longos e duradouros que ainda perduram em mim, deixei que o seu sentir me despedaçasse os sentidos e me narcotizasse a consciência.

A lucidez da queda é arrepiante. A contemplação da beleza do mundo é acompanhada de calafrios que resultam da necessidade de questionar esse deslizar para o fim “Que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.)”e, mais adiante, a resposta desponta ofuscada com a claridade do sol: “dor sem esperança”.

As montanhas do Afeganistão esmagam-na, e, também eu, esmagada, continuo a ler as nossas entranhas “Mas o que fazer? Não havia, ontem ainda, tanto que fazer?”. O desalento, a angústia que desbasta, obriga a continuação de um caminho “para não cedermos à tentação de nos atiramos ao chão e chorarmos de cansaço e desespero. Ah, aqui não se chora. É pior, muito pior. Aqui estamos sós”.

Aqui estamos sós, repito eu.

De repente, a queda é interrompida. A paragem permite uma visão panorâmica da dor, de uma dor lancinante a que se tem de pôr fim “e estamos a chegar ao fim, estamos a chegar ao fim…”. “Todos os caminhos que percorri, todos os caminhos que não percorri, terminam aqui, «no vale feliz», donde não há saída, e por isso se assemelha já ao lugar da morte”.

Duas lágrimas interrompem a leitura e a névoa dificulta a visibilidade do abismo. Mas está lá, espera, silencioso, sorri e mente, “Ah, um dia encontraremos ajuda…” Encontrará ajuda nas “águas escuras e frescas da morte. Sim, queria morrer. (…) Mas esta foi apenas a última tentação, nem sequer foi a pior.”

Um murro no estômago. Náusea. Tenho de parar. Até para mim é demasiado violento.

- “Querido anjo – disse eu, - querido anjo, ajuda-me!”



Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Edições Tinta da China, Lisboa



domingo, 21 de março de 2010

Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta velha angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este pode ser que...,
Isto.

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
estou doido a frio,
estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos de loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Qué é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos tivesse um religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia lá em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado?

Álvaro de Campos, in "Poemas"

sexta-feira, 12 de março de 2010

Intermitências da vida


Depois de uma longa estadia na gruta necessito de renascer para a vida. Para a vida vivida - monótona, maçadora, violenta, desgastante, opressora, constrangedora, brutal… mas também para a vida sonhada – libertadora, arrebatadora, surpreendente, entusiasmante, empolgante, comovente, alegre…
A tentativa de encontrar um equilíbrio que me permitisse encarar a realidade sem angústias opressoras, saiu gorada. No entanto, sinto-me mais forte, mais capaz de lidar com as “intermitências da vida”. A “mulher-cão” que habita em mim tornou-me ainda mais feroz, mas não tenho mordido, não quero morder…                        

Quero alcançar a serenidade suficiente que permita aos “outros” aproximarem-se. Sim, não mordo. Ladro. Às vezes com uma ferocidade que até a mim me assusta. Nessas alturas, sou eu que fujo de mim própria. Mas também sou dócil, sou dócil com aqueles que me inspiram confiança, amizade, ternura…

Abri a porta à estranheza da vida. Não quero voltar a fechá-la. Quero simplesmente viver a vida!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Encerrado para balanço. Reabre brevemente.


Uma pausa necessária.


Um tempo de reflexão.

A procura de um caminho, de uma nova forma de estar e sentir.

Um balanço.

Deixei a porta entreaberta. Às vezes preciso de deixar entrar alguém… de quebrar a solidão.

Às vezes sinto esperança.

Às vezes a angústia permanece.

Preciso de me reinventar!