quinta-feira, 15 de abril de 2010

Angústia dos outros – uma espécie de recensão


A autora começa por avisar que “Este livro trará pouca alegria ao leitor. Não o poderá consolar nem reconfortar, como muitas vezes os livros tristes sabem fazer…”.

Fiquei assustada. Li uma dezena de vezes para decidir se devia continuar. Estou avisada na nota prévia que aquilo que procuro na leitura (sou uma leitora muito selectiva) -  consolo - não vou encontrar neste livro.

O abismo sempre me atraiu e continuar a ler “Morte na Pérsia” de Annemarie Schwarzenbach foi, de todo, uma queda no abismo. Acompanhei-a (ou será que foi o contrário?), na sua descida ao inferno de descoberta do verdadeiro ser e, por momentos longos e duradouros que ainda perduram em mim, deixei que o seu sentir me despedaçasse os sentidos e me narcotizasse a consciência.

A lucidez da queda é arrepiante. A contemplação da beleza do mundo é acompanhada de calafrios que resultam da necessidade de questionar esse deslizar para o fim “Que acontece quando uma pessoa chega ao fim das suas forças? (Não é doença, não é dor, não é infelicidade, é pior.)”e, mais adiante, a resposta desponta ofuscada com a claridade do sol: “dor sem esperança”.

As montanhas do Afeganistão esmagam-na, e, também eu, esmagada, continuo a ler as nossas entranhas “Mas o que fazer? Não havia, ontem ainda, tanto que fazer?”. O desalento, a angústia que desbasta, obriga a continuação de um caminho “para não cedermos à tentação de nos atiramos ao chão e chorarmos de cansaço e desespero. Ah, aqui não se chora. É pior, muito pior. Aqui estamos sós”.

Aqui estamos sós, repito eu.

De repente, a queda é interrompida. A paragem permite uma visão panorâmica da dor, de uma dor lancinante a que se tem de pôr fim “e estamos a chegar ao fim, estamos a chegar ao fim…”. “Todos os caminhos que percorri, todos os caminhos que não percorri, terminam aqui, «no vale feliz», donde não há saída, e por isso se assemelha já ao lugar da morte”.

Duas lágrimas interrompem a leitura e a névoa dificulta a visibilidade do abismo. Mas está lá, espera, silencioso, sorri e mente, “Ah, um dia encontraremos ajuda…” Encontrará ajuda nas “águas escuras e frescas da morte. Sim, queria morrer. (…) Mas esta foi apenas a última tentação, nem sequer foi a pior.”

Um murro no estômago. Náusea. Tenho de parar. Até para mim é demasiado violento.

- “Querido anjo – disse eu, - querido anjo, ajuda-me!”



Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Edições Tinta da China, Lisboa