Uma pausa necessária.
Um tempo de reflexão.
A procura de um caminho, de uma nova forma de estar e sentir.
Um balanço.
Deixei a porta entreaberta. Às vezes preciso de deixar entrar alguém… de quebrar a solidão.
Às vezes sinto esperança.
Às vezes a angústia permanece.
Preciso de me reinventar!
Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto? Raul Brandão
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Insónia
Deita-se na cama, procura uma posição para tentar sossegar, mas não consegue. O pensamento dá-lhe voltas e mais voltas - e o corpo vai atrás, dando também voltas e mais voltas. Outras vezes, é o contrário: o corpo não pára e o pensamento segue-o. Ela acha que não adormece para não ter de acordar. Os últimos tempos foram-lhe atirados como se atira uma lança a um alvo e se acerta em cheio. Os movimentos da sua vida começaram a trocar-se: quando queria andar, parava. Dizem que há sinais a preceder as catástrofes, mas o desastre aconteceu-lhe sem aviso. Subitamente, quase tudo se desmoronou. A derrocada do seu mundo deixou-a "sem tecto, entre ruínas". Agora, quer dormir e não consegue. Em redor dela, há um silêncio que soa como um barulho insuportável. Dentro da sua cabeça, existe um vazio que parece mais pesado do que o chumbo.
Como acontece com o clima dos dias instáveis, na sua vida o sol tornou-se sombra e frio e chuva e trovoada e relâmpago e raio. Tudo o que lhe pertencia se fez alheio. Todos os gostos se lhe mudaram em desgostos. Quando deu por isso, estava apenas acompanhada de cuidados, pressões, impasses. Tornou-se insegura, inquieta, insatisfeita. Ficou ausente de si mesma e carregada dessa ausência. Quando quer saber o que lhe aconteceu, é como se lesse um texto numa língua que não compreende inteiramente e do qual só consegue decifrar algumas palavras. Cada dia que passa acrescenta-lhe o dia anterior de um problema, de um desgaste, de uma tortura. Olha-se no espelho e vê um rosto envelhecido pela surpresa lenta e dura da incompreensão. Vêm-lhe à boca palavras como azar, desventura, desânimo, derrota.
A noite cresce contra ela. Esteve horas sentada na cama, em frente da televisão, a pensar que não queria pensar. Olhou o ecrã, ouviu o som como se o aparelho estivesse estragado. Parecia-lhe que as vozes se aproximavam, depois que se afastavam. As imagens corriam, depois paravam. Ávida, comeu uma caixa de chocolates. O pijama ficou cheio de nódoas, o lençol babado de uma baba pegajosa e escura. Com a mão presa ao comando, mudou de canal sem parar, num zapping de si mesma, delirante e inútil. Não conseguia fixar a atenção. Ouvia palavras da política misturadas com gritos de crimes. Escutava números da economia sobrepostos a imagens de desportos. Tudo lhe foi a mesma coisa, o mesmo espectáculo indiferente. O estado de agitação e fadiga em que se encontra, com aquela espécie de jet lag perpétuo, abre-lhe as portas da percepção. Vê em si, com toda a evidência, aquilo que tinha apenas adivinhado: uma doença que nem esse nome quer usar.
Apaga a televisão e tenta adormecer. Não consegue. Tenta outra vez. Dá voltas e mais voltas. Olha o relógio. São cinco horas da madrugada. Liga a televisão outra vez. Continua a mudar de canal, à procura de uma imagem, de um som que a repouse. Dói-lhe o corpo, já não tem posição, agarra-se à almofada, estica as pernas. Tomou dois comprimidos para dormir. Está num canal que fala uma língua que lhe é desconhecida. Fica presa a uma imagem a preto e branco. Nela, uma mulher com um rosto roto pelas rugas corre à frente de quem a persegue. Uma música aguda segue-a também. A mulher cai e é apanhada. O plano muda e aparece um homem a falar com um gesto repetitivo. Ela não percebe o que ouve, mas percebe o que vê. Continua a olhar. De repente, fica com sono. Subjuga-se a ele. Está quase a adormecer, faz um esforço para aproveitar uma oportunidade que não se repetirá. Passam minutos e o sono passa também. Começa outra vez a dar voltas. Agarra um livro que tem à mão e tenta ler. Não consegue concentrar-se. As frases não chegam ao fim. É como se o livro fosse escrito na estranha língua do filme a preto e branco.
Fecha o livro, atira-o para o chão, com raiva. Apaga a luz, tenta dormir de novo, dá voltas e mais voltas. Não consegue. Levanta-se. Vai para o sofá, liga a televisão da sala. Passado um bocado, adormece. Sonha com a sua insónia. Dorme duas horas e acorda. Está torcida, amarrotada, desfeita. Tem o pescoço a doer-lhe. Olha a janela e vê que o dia começa a clarear. Fica perdida, suspensa. A televisão continua ligada e as suas vozes enervam-na. Tira-lhe o som. O tempo arrefeceu, mas ela não tem frio. Fica imóvel, a olhar o vidro embaciado da janela. Passa a mão pelo cabelo, pelo rosto, pelo corpo, a desejar a carícia que ninguém lhe faz. Permanece assim, nauseada, esgotada, anulada. De repente, o alarme do telemóvel toca. Assusta-se. Salta. Tem de se arranjar. Fica ainda um bocado sentada. Está quase a adormecer. Deixa-se dormir uns minutos. Acorda, estremunhada, com medo de já estar atrasada. Corre para a casa de banho. Toma duche num instante. Sai do banho, mas é como se a água a tivesse sujado.
José Manuel dos Santos
colunista regular do "Actual"
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Procura-se
Gruta. Procura-se. Em estado pré-histórico. Objectos de sobrevivência mínimos. Alguns paus e pedras para afugentar intrusos. Exige-se solidão absoluta. Paga-se generosamente a quem conhecer tal paradeiro.
Mulher-Cão
Paula Rego, Mulher-Cão"Mulher-Cão é a coisa que eu tenho mais orgulho de ter feito, porque é uma mulher sozinha, mas que ainda morde. Uma mulher só, num canto, contra a parede, que não pode fugir, mas que arreganha o dente e que morde! Morde até ao fim, luta até ao fim, apanha pancada, mas lá vai lutando sempre! E depois, essa "Mulher-Cão" apareceu, "apareceu-me"! Essas coisas acontecem, não é? E então eu pensei, esta mulher vai levar-me a sítios onde eu nunca fui, vai ser o meu guia. E assim foi. E comecei através da "Mulher-Cão" a tocar partes da minha vida que eu não tinha tido nunca coragem, nem oportunidade de fazer, nem sabia como lá chegar. Mas com ela, lá fui fazendo: o "Bad Dog", a humilhação, o amor, a lealdade e a submissão cúmplice das mulheres, um certo masoquismo das mulheres, no amor e na traição … O casamento é uma espécie de mortalha, não é? É a "mulher-bicho" que tem força através da sua animalidade, é a parte física, dos instintos, que é muito importante! O silêncio tácito das mulheres, a sua "endurance" e o seu sentido de honra."
Paula Rego
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
O meu querido mês de Setembro
Don Quijote y los molinos de viento, Salvador Dali Finalmente chegou o fim de férias. Tudo o que previa aconteceu. Medos, angústias, receios, voltaram a "injectar-me de intranquilidade". A minha necessidade de consolo é impossível de satisfazer.
O consolo de trabalhar, o prazer de me concentrar em tarefas que me evadem de mim própria, recomeça amanhã. Preciso de me sentir alienada. O trabalho é a minha forma de alienação.
Bem-vindo meu querido mês de Setembro.
domingo, 19 de julho de 2009
Disfunção
O Grito, E. MunchO ano lectivo está a chegar ao final. No entanto, tenho trabalhado tanto, que desenvolvi uma espécie de disfunção – disfunção psiconeurótica (a palavra é assinalada como erro e depois de uma pesquisa para precisar o seu significado, fiquei ainda mais neurótica, ou devo dizer, esquizóide, obsessiva–compulsiva, etc.) de pânico de férias. De uma forma mais simples, tenho medo de ficar de férias.
Medo de não saber o que fazer ao tempo livre de que vou dispor.
Medo de me confrontar comigo própria.
Medo de pensar, de pensar naquilo que me magoa e me angustia.
Medo de não saber estar tanto tempo com as pessoas cá de casa.
Medo dos momentos de tensão a que não posso virar as costas dizendo - “vou trabalhar”.
Medo da minha inflexibilidade perante alguns comportamentos recorrentes.
Medo de me sentir asfixiada.
É importante explicar. Trabalhar tem sido para mim uma espécie de terapia. Quando estou a trabalhar sinto uma espécie de liberdade, de autonomia, que por várias razões (algumas são óbvias para aqueles que me são próximos) não sinto quando estou em casa. Em casa deparo-me com as limitações e constrangimentos circunstanciais e com os quais tenho lidado muito mal. Não me apetece ser mais precisa. Podia tornar-me inconveniente. Nada que não faça parte da minha essência, mas neste caso prefiro evitar. A trabalhar não sinto que estou a realizar “a minha obrigação”, “o meu dever”, sinto que tenho o privilégio de fazer coisas que me dão prazer.
Medo do vazio. Medo do vazio.
Esta disfunção, esta incapacidade de me sentir compensada e consolada com momentos de lazer, assusta-me e preferia não ter de a reconhecer. A análise psicológica da situação é demasiado fácil de fazer. Não é necessário ter conhecimentos profundos em psicologia. E, ao contrário da generalidade das pessoas, necessito, talvez de um ansiolítico para reduzir a ansiedade resultante da aproximação das férias.
Esta semana estou naturalmente medicada. Muitas horas de trabalho por dia. A minha funcionalidade será testada e posso, assim, adiar a tal disfunção que prefiro nomear por PDF.
Medo de não saber o que fazer ao tempo livre de que vou dispor.
Medo de me confrontar comigo própria.
Medo de pensar, de pensar naquilo que me magoa e me angustia.
Medo de não saber estar tanto tempo com as pessoas cá de casa.
Medo dos momentos de tensão a que não posso virar as costas dizendo - “vou trabalhar”.
Medo da minha inflexibilidade perante alguns comportamentos recorrentes.
Medo de me sentir asfixiada.
É importante explicar. Trabalhar tem sido para mim uma espécie de terapia. Quando estou a trabalhar sinto uma espécie de liberdade, de autonomia, que por várias razões (algumas são óbvias para aqueles que me são próximos) não sinto quando estou em casa. Em casa deparo-me com as limitações e constrangimentos circunstanciais e com os quais tenho lidado muito mal. Não me apetece ser mais precisa. Podia tornar-me inconveniente. Nada que não faça parte da minha essência, mas neste caso prefiro evitar. A trabalhar não sinto que estou a realizar “a minha obrigação”, “o meu dever”, sinto que tenho o privilégio de fazer coisas que me dão prazer.
Medo do vazio. Medo do vazio.
Esta disfunção, esta incapacidade de me sentir compensada e consolada com momentos de lazer, assusta-me e preferia não ter de a reconhecer. A análise psicológica da situação é demasiado fácil de fazer. Não é necessário ter conhecimentos profundos em psicologia. E, ao contrário da generalidade das pessoas, necessito, talvez de um ansiolítico para reduzir a ansiedade resultante da aproximação das férias.
Esta semana estou naturalmente medicada. Muitas horas de trabalho por dia. A minha funcionalidade será testada e posso, assim, adiar a tal disfunção que prefiro nomear por PDF.
domingo, 5 de julho de 2009
Vícios
Coloured_Smoke, Photography by Graham JefferyTenho imensos vícios e imensas dificuldades em ordená-los por ordem de importância. Tem dias que vão ocupando lugares diferentes numa hierarquia que depende essencialmente do meu estado de espírito. Mas o primeiro, o que está em primeiríssimo lugar, é sem dúvida fumar. Maldito vício que me vai matar, um dia…
Tenho o vício de gostar de pessoas que acho que não me merecem (importante juízo de valor, a meu respeito, claro!, porque tenho esta mania de não me consolar com o que a “vida”, caridosamente, me dá e daí a “Angst”, uma angústia resultante da consciência de que valho mais, muito mais, do que aquilo que, acidentalmente, me vão oferecendo). Vivo numa espécie de ansiedade constante à espera de sinais que correspondam aquilo que espero dos outros. A minha exigência elevada resulta numa frustração sofrida e sentida que me deixa inquieta e de péssimo humor. Este último aspecto tem piorado com a idade e receio bem que esteja a tornar-se um vício. Há dias que ocupa o primeiríssimo lugar do pódio e fico com um aspecto de Vasco Pulido Valente, ainda sem a voz rouca etilizada de fumo (ainda não tenho o vício de beber).
Também tenho vícios supostamente saudáveis. Tenho o vício de ler. Mas as preferências levam-me sempre para leituras que agudizam a existencial angústia. A única vantagem é que o sentimento de solidão fica atenuado. Afinal não estou só! Afinal o que sinto padece de uma espécie de universalidade humana. Apesar de só uma pequena percentagem de humanos perder tempo a pensar naquilo que lhe pode provocar uma tal angústia que os leva a desistir de viver. A leitura pode ser, nesta perspectiva, muito prejudicial à saúde. Pode até matar mais depressa que o tabaco. Por isso defendo que alguns livros deveriam ter nas capas avisos semelhantes aos que aparecem nos cigarros “Ler prejudica gravemente a saúde e a dos que o rodeiam”. Parece-me que esta preocupação com aqueles que rodeiam os leitores viciados devia ser levada mais a sério. Muito do meu mau humor resulta da constatação literária de que a vida é uma merda. Quem tem o vício de ler Philip Roth sabe ao que estou a referir-me. E o Roth é um mero exemplo. Há outros. Stig Dagerman, por exemplo. David Lodge tem a particularidade de nos apresentar situações verdadeiramente hilariantes para nos transmitir a mesma ideia – a vida é uma … Ainda assim tem a vantagem de nos fazer rir com vontade antes de ficarmos angustiados. Pode parecer paradoxal, mas o sarcasmo tem muito de deprimente.
Tenho o vício de ouvir música quando conduzo. Até aqui nenhum problema. Este advém do volume que necessito para conseguir concentrar-me na música e desfrutar. A maioria das vezes, alheio-me e não consigo estar atenta à condução. Até hoje não houve nenhuma situação “perigosa”, tirando o facto de o carro poder explodir e eu não dar por nada. Já aconteceram algumas situações caricatas, que poderiam ter resultado em problemas sérios, para mim e para os outros. Também este pode ser um vício perigoso.
Mais vícios – da limpeza, da arrumação, da justiça, da verdade, da… Há dias em que todos se vão sucedendo a um ritmo verdadeiramente alucinante, por uma ordem que nem consigo descrever, e que me fazem sentir como uma “toxicodependente” ciosa de encontrar o seu espaço de arrumação e capaz de organizar todos os estacionamentos num raio de n kms quadrados.
Tenho muitos mais vícios que ainda não analisei devidamente e, por isso, não me atrevo ainda a apresentá-los. Mas sei que, relativamente a alguns, tenho de adoptar uma atitude mais cuidadosa, antes que estes passem a dominar um “eu” já fragilizado por admitir a existência de “vícios”.
Preciso de terapia. Mas sei que me vou viciar no tratamento…
Tenho o vício de gostar de pessoas que acho que não me merecem (importante juízo de valor, a meu respeito, claro!, porque tenho esta mania de não me consolar com o que a “vida”, caridosamente, me dá e daí a “Angst”, uma angústia resultante da consciência de que valho mais, muito mais, do que aquilo que, acidentalmente, me vão oferecendo). Vivo numa espécie de ansiedade constante à espera de sinais que correspondam aquilo que espero dos outros. A minha exigência elevada resulta numa frustração sofrida e sentida que me deixa inquieta e de péssimo humor. Este último aspecto tem piorado com a idade e receio bem que esteja a tornar-se um vício. Há dias que ocupa o primeiríssimo lugar do pódio e fico com um aspecto de Vasco Pulido Valente, ainda sem a voz rouca etilizada de fumo (ainda não tenho o vício de beber).
Também tenho vícios supostamente saudáveis. Tenho o vício de ler. Mas as preferências levam-me sempre para leituras que agudizam a existencial angústia. A única vantagem é que o sentimento de solidão fica atenuado. Afinal não estou só! Afinal o que sinto padece de uma espécie de universalidade humana. Apesar de só uma pequena percentagem de humanos perder tempo a pensar naquilo que lhe pode provocar uma tal angústia que os leva a desistir de viver. A leitura pode ser, nesta perspectiva, muito prejudicial à saúde. Pode até matar mais depressa que o tabaco. Por isso defendo que alguns livros deveriam ter nas capas avisos semelhantes aos que aparecem nos cigarros “Ler prejudica gravemente a saúde e a dos que o rodeiam”. Parece-me que esta preocupação com aqueles que rodeiam os leitores viciados devia ser levada mais a sério. Muito do meu mau humor resulta da constatação literária de que a vida é uma merda. Quem tem o vício de ler Philip Roth sabe ao que estou a referir-me. E o Roth é um mero exemplo. Há outros. Stig Dagerman, por exemplo. David Lodge tem a particularidade de nos apresentar situações verdadeiramente hilariantes para nos transmitir a mesma ideia – a vida é uma … Ainda assim tem a vantagem de nos fazer rir com vontade antes de ficarmos angustiados. Pode parecer paradoxal, mas o sarcasmo tem muito de deprimente.
Tenho o vício de ouvir música quando conduzo. Até aqui nenhum problema. Este advém do volume que necessito para conseguir concentrar-me na música e desfrutar. A maioria das vezes, alheio-me e não consigo estar atenta à condução. Até hoje não houve nenhuma situação “perigosa”, tirando o facto de o carro poder explodir e eu não dar por nada. Já aconteceram algumas situações caricatas, que poderiam ter resultado em problemas sérios, para mim e para os outros. Também este pode ser um vício perigoso.
Mais vícios – da limpeza, da arrumação, da justiça, da verdade, da… Há dias em que todos se vão sucedendo a um ritmo verdadeiramente alucinante, por uma ordem que nem consigo descrever, e que me fazem sentir como uma “toxicodependente” ciosa de encontrar o seu espaço de arrumação e capaz de organizar todos os estacionamentos num raio de n kms quadrados.
Tenho muitos mais vícios que ainda não analisei devidamente e, por isso, não me atrevo ainda a apresentá-los. Mas sei que, relativamente a alguns, tenho de adoptar uma atitude mais cuidadosa, antes que estes passem a dominar um “eu” já fragilizado por admitir a existência de “vícios”.
Preciso de terapia. Mas sei que me vou viciar no tratamento…
domingo, 28 de junho de 2009
Da Minha Janela
PabloPicasso,Woman-at-a-WindowEspreito a noite e as estrelas
A imensidão escura de um céu
pontilhado de brilho.
De um brilho que queria sentir
No meu peito.
O fumo do cigarro aquece a melancolia
despovoada e silenciosa.
Os argumentos deslizam na mente fatigada
De tento rever a mágoa molhada em palavras
Que se repetem.
A arquitectura da mente e da alma espelham
A impossibilidade da espera.
O sentir e o pensar, paradoxos incomensuráveis
Que a noite abarca num oceano de incertezas.
E amanhã? Da minha janela, contemplarei o mesmo?
A imensidão escura de um céu
pontilhado de brilho.
De um brilho que queria sentir
No meu peito.
O fumo do cigarro aquece a melancolia
despovoada e silenciosa.
Os argumentos deslizam na mente fatigada
De tento rever a mágoa molhada em palavras
Que se repetem.
A arquitectura da mente e da alma espelham
A impossibilidade da espera.
O sentir e o pensar, paradoxos incomensuráveis
Que a noite abarca num oceano de incertezas.
E amanhã? Da minha janela, contemplarei o mesmo?
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Ideia do amor
Foto, Francisco MendesViver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.
Ideia da Prosa, Giorgio Agamben
domingo, 31 de maio de 2009
Caos Calmo

Um filme pode salvar-nos? Um filme pode salvar-nos da dor da perda? Talvez. Talvez por mais um dia. Talvez enquanto perdurar o turbilhão de emoções que despertou.
Nanni Moretti. Pietro. Um homem. A dor. O caos. E, no entanto, a beleza da quietude enquanto espera. Enquanto ouve os problemas dos outros e assume o amor. A filha.
O título define o próprio sentir da narrativa. Um homem que perante o caos pára e observa. Sentado num banco de jardim observa as pequenas coisas que dão sentido à vida. Sentado, enquanto espera que a filha saia da escola, procura um sentido, o sentido. O sentido para a perda, o sentido para a dor.
Perante a fragilidade da vida, ausenta-se do mundo e é mero espectador. Procura a perspectiva correcta para poder voltar a viver. É este compasso de espera que permite a salvação, a libertação.
Hoje salvou-me. Salvou-te. Não sei do que precisarei amanhã para me sentir salva. Talvez de amor. Um sinal de amor.
Nanni Moretti. Pietro. Um homem. A dor. O caos. E, no entanto, a beleza da quietude enquanto espera. Enquanto ouve os problemas dos outros e assume o amor. A filha.
O título define o próprio sentir da narrativa. Um homem que perante o caos pára e observa. Sentado num banco de jardim observa as pequenas coisas que dão sentido à vida. Sentado, enquanto espera que a filha saia da escola, procura um sentido, o sentido. O sentido para a perda, o sentido para a dor.
Perante a fragilidade da vida, ausenta-se do mundo e é mero espectador. Procura a perspectiva correcta para poder voltar a viver. É este compasso de espera que permite a salvação, a libertação.
Hoje salvou-me. Salvou-te. Não sei do que precisarei amanhã para me sentir salva. Talvez de amor. Um sinal de amor.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
É bem possível…
Salvador Dalí, Face of Mae WestÉ bem possível que ela encarasse as coisas de forma demasiado trágica. Isso acontece a muitas pessoas que, quando se sentem de mau humor, se deixam arrastar por essa pequena má disposição e esta vai-se tornando cada vez pior, tal como se rodassem dentro de uma carruagem e esta as fosse arrastando cada vez para mais longe. Não há qualquer razão para ficarmos insuportáveis só porque, uma vez ou outra, não nos sentimos em plena forma. Não há razão, também, para que nos detestemos só porque, uma vez por outra, ficámos rabugentos. Isso pode bem acontecer, infelizmente, e é muito estúpido da nossa parte. Devemos, pois, tentar achar que a maldade em si é uma coisa má, mas considerá-la bonita enquanto tal, e há nela, de facto, algo de belo, de muito, muito mais belo do que num qualquer rosto de expressão insipidamente amável, como os que aparecem nas fotografias, sem o mínimo valor em si, porquanto constituem um testemunho de falta de experiência de vida.
O salteador, Robert Walser, Relógio D’Água, pp.101
sábado, 23 de maio de 2009
Eu e Eu
Angustia, Salvador Dali" assim que me levantei, coloquei-me no sítio donde me vira ao espelho e olhei. Diante de mim estava uma pessoa que me fitava com uma inteira individualidade que vivesse em mim e eu ignorava. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto. E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e que me metia medo. Quantas vezes mais tarde eu repetiria a experiência no desejo de fixar essa aparição fulminante de mim a mim próprio, essa entidade misteriosa que eu era e agora absolutamente se me anunciava. "
Aparição, Virgílio Ferreira
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Quem procuro?
domingo, 17 de maio de 2009
Concordo!

As pessoas só existem no "nós" e têm dificuldade em existir individualmente. E transmitem isso de todas as maneiras! O Stig Dagerman tem um livro chamado A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer. Todos precisamos de consolo, e este consolo tem pouco de sexual (ainda que, na nossa língua, a palavra "consolado" tenha uma conotação sexual). Penso nela no sentido de conforto íntimo, de satisfação. Às vezes, como não conseguimos descobrir essas formas de consolação amplas, ficamos por formas pequeninas de consolação; entre elas, a sexual. E isto não é desprezar o sexual!, que acho muito importante. Mas não acho que tenha a centralidade que noutras fases da vida lhe damos.
PÚBLICO, 17 de Maio de 2009
Entrevista de Anabela Mota ribeiro a Isabel Leal
Isabel Leal é psicóloga clínica. É professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (Lisboa). É presença regular em jornais e revistas, onde fala do seu tema. Que é também o nosso tema: o que sentimos, o que somos.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Quando a realidade supera a ficção…

“Até mesmo ao último dia, o tom das relações de Herzog com Madalena foi bastante sério – ou seja, ideias, personalidades, argumentos, foram respeitados e discutidos. Quando ela lhe deu a notícia, por exemplo, exprimiu-se com dignidade, naquele seu maravilhoso, poderoso estilo. Vira a questão de todos os ângulos, afirmava, e tinha de aceitar a derrota. Não podiam entender-se os dois. Estava preparada para admitir algumas culpas. Claro que Herzog não se encontrava completamente desprevenido. Mas convencera-se de facto de que a situação estava a tornar-se melhor.
(…) Nesta acareação, na salinha em desalinho, duas espécies de egoísmo estavam presentes, e Herzog, do seu sofá, em Nova Iorque, contemplava-os agora – o dela, triunfante (tinha preparado o grande momento, ia fazer aquilo de que mais gostava, dar um golpe), e o dele, na expectativa, todo convertido em passividade. O que ia sofrer, merecia-o; pecara larga e longamente; merecera-o. Aqui estava.
Na janela, em prateleiras de vidro, encontrava-se uma colecção ornamental de pequenas garrafas de vidro. Pertenciam à casa. O sol tocava-lhes agora. A luz penetrava-as. Herzog via as ondas, as linhas de cor, as barras espectrais entrecruzadas, e especialmente uma grande mancha de branco flamejante no centro da parede, sobre Madalena. Esta dizia: - Não podemos viver juntos por mais tempo.
O seu discurso continuou durante vários minutos. As frases eram bem construídas. O seu discurso fora ensaiado e parecia que também ele tinha estado à espera que o espectáculo começasse.
(…)Herzog, na prisão da sua intimidade (…), imaginava o que teria acontecido se, em vez de ouvir tão atenta e passivamente, tivesse esbofeteado Madalena.(…)
Que sucederia se o tivesse feito? Devia ter-lhe rasgado a roupa, arrancado o colar, esmurrado a cabeça. Rejeitou a violência mental, suspirando. Temia ter secretamente tendência para esta espécie de brutalidade. Mas supondo mesmo que lhe tivesse dito a ela para deixar a casa. No fim de contas, era a casa dele. Se não podia viver com ele, porque não partia? O escândalo? Não havia necessidade de fugir a um pequeno escândalo. Teria sido doloroso, grotesco, mas um escândalo era, afinal, uma espécie de serviço feito à comunidade. Somente Herzog nunca se lembrara, naquela pequena sala de garrafas flamejantes, de se manter firme. Pensava talvez que poderia ganhar pela força da passividade, da personalidade, por ser, afinal, Moisés – (…) – um bom homem, e especial benfeitor de Madalena. Fizera tudo por ela – tudo!”
Herzog, Saul Bellow
sábado, 9 de maio de 2009
Foi com uma rosa amarela que o teu dia começou, ontem

Parabéns filha!
Gostava de ter dito que hoje (foi ontem) é um dia muito especial também para mim. Já tens vinte anos. Vinte anos.
Gostava de ter dito que hoje (foi ontem) é um dia muito especial também para mim. Já tens vinte anos. Vinte anos.
Ainda há pouco tempo, parece tão pouco tempo, dormias no meu colo. Gostavas tanto de colo… Acho que não te dei todo o colo que podia ter dado. Mas, tal como tu hoje, também tinha pouco mais de vinte anos. E não sabia, não sabia tantas coisas…
Estava tão feliz e, ao mesmo tempo, tinha medo. Estava assustada, receosa e tu, tão pequenina, deste-me confiança e coragem. Eu sei que muita dessa coragem se foi perdendo com o tempo. Mas hoje olhei para ti e vi muito do que fui, do que era e de certa forma recuperei a coragem para os dias que estão para vir.
Amo-te filha e quero que sejas feliz, muito feliz e que saibas que estarei sempre do teu lado.
Estava tão feliz e, ao mesmo tempo, tinha medo. Estava assustada, receosa e tu, tão pequenina, deste-me confiança e coragem. Eu sei que muita dessa coragem se foi perdendo com o tempo. Mas hoje olhei para ti e vi muito do que fui, do que era e de certa forma recuperei a coragem para os dias que estão para vir.
Amo-te filha e quero que sejas feliz, muito feliz e que saibas que estarei sempre do teu lado.
domingo, 3 de maio de 2009
De Mãe para Filha

Obrigada.
Por todos os dias felizes.
Que essa memória paire entre nós como um véu que nos protege de dias “amargos” e de tristezas que às vezes parecem impossíveis de ultrapassar. Que continues determinada e forte para alcançar o teu caminho. Que possas continuar a ser feliz e a amar… e a amar-me.
Com todo o meu amor de Mãe.
Com todo o meu amor de Mãe.
domingo, 26 de abril de 2009
Angústias...e outros jantares
Liberdade, liberdade, liberdade, liiiiiiiiiiiiiiiiiiberdaaaaaaaaaaaaaaaaaadeeeeeeeeeeeeee
Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas…. (Oiço a melodia e sinto a importância do significado.)
Podia elencar algumas frases sugestivas ao dia da Liberdade. Hoje, 26 de Abril, é um dia para recordar. Como tantos outros. O Natal, a Páscoa, o dia da Mãe, o aniversário de…, o Ano Novo etc., que recordo e associo aos piores momentos da minha vida. Eu sei que o nível de stress associado a estes dias é grande. Teriam de ser perfeitos e, no entanto, não foram. Ficam associados a desilusões, sofrimento e dor. Com muito esforço, com muita dedicação e amor, foram ultrapassados alguns momentos maus. Mas hoje, o dia de hoje (mau, muito mau) posso-o relacionar com a liberdade. Uma liberdade sentida e conquistada.
Finalmente sinto-me livre. Livre de alguns laços, nós e amarras. Livre porque sei. Sei.
Sei o que esperam de mim, sei o que posso esperar e sei o que quero. Sei que não tenho de fazer encenações e que não necessito de máscaras. Sei que não tenho de corresponder a um ideal. Já nada esperam de mim. E eu sinto-me livre. Livre! Este é o primeiro dia do resto da minha vida.
Podia elencar algumas frases sugestivas ao dia da Liberdade. Hoje, 26 de Abril, é um dia para recordar. Como tantos outros. O Natal, a Páscoa, o dia da Mãe, o aniversário de…, o Ano Novo etc., que recordo e associo aos piores momentos da minha vida. Eu sei que o nível de stress associado a estes dias é grande. Teriam de ser perfeitos e, no entanto, não foram. Ficam associados a desilusões, sofrimento e dor. Com muito esforço, com muita dedicação e amor, foram ultrapassados alguns momentos maus. Mas hoje, o dia de hoje (mau, muito mau) posso-o relacionar com a liberdade. Uma liberdade sentida e conquistada.
Finalmente sinto-me livre. Livre de alguns laços, nós e amarras. Livre porque sei. Sei.
Sei o que esperam de mim, sei o que posso esperar e sei o que quero. Sei que não tenho de fazer encenações e que não necessito de máscaras. Sei que não tenho de corresponder a um ideal. Já nada esperam de mim. E eu sinto-me livre. Livre! Este é o primeiro dia do resto da minha vida.
Agora acredito. Melhores dias virão.
Eu sei, eu sinto que sim.
Estou livre.
domingo, 22 de março de 2009
Corre Lola Corre

"Não terminaremos a nossa caminhada. No final dela chegaremos ao ponto de partida.
E conheceremos esse lugar pela primeira vez." T.S. Eliot
Corro, corro, corro, corro contra o tempo, uma corrida frenética (tal como a Lola do filme)para alcançar o ponto de partida e, aí, poder conhecer a minha condição.
Uma corrida ao passado em busca da compreensão do presente. Corro para me encontrar, corro para me salvar e depois, talvez, salvar aqueles que amo.
Não me tem sobrado tempo para mais nada, nem sequer para iluminar de “vermelho” o meu cabelo.
Nota: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
domingo, 1 de março de 2009
A comédia que não é divina e que não é comédia
Detalhe do Inferno de Dante, por RodinAo longo da vida vamos acumulando memórias que determinam a nossa identidade e o que sentimos perante os acontecimentos a que chamamos “vida”.
Numa espécie de ”descida ao inferno”, a minha memória tem interferido, quase diariamente, na relação com aqueles que me são mais próximos. Tenho lembrado momentos que deveriam ocupar as camadas mais subterrâneas da minha mente. Essas memórias pairam, como nuvens carregadas, na minha mente e não me deixam discernir a realidade doutra forma. Angústia, tristeza, mais angústia, mais sofrimento, mágoa, inquietação, mais amargura, ansiedade, frustração, desilusão… E os dias vão passando sem conseguir psicanalisar tais sintomas. Os outros (ou quase todos os outros) representam a minha incapacidade de ser outra, a saudade do que passou e o pesar de não poder mudar nada. De não poder mudar o passado, de não poder mudar o presente. De não poder mudar e mudá-los.
O futuro aparece sempre ensombrado pelas memórias do passado e pelas contingências do presente. O futuro que é amanhã e que consiste na permanência no purgatório, na expiação impossível dos pecados cometidos. A luz do inferno ilumina esta caminhada, cada vez mais solitária, em direcção a um paraíso inexistente.
Numa espécie de ”descida ao inferno”, a minha memória tem interferido, quase diariamente, na relação com aqueles que me são mais próximos. Tenho lembrado momentos que deveriam ocupar as camadas mais subterrâneas da minha mente. Essas memórias pairam, como nuvens carregadas, na minha mente e não me deixam discernir a realidade doutra forma. Angústia, tristeza, mais angústia, mais sofrimento, mágoa, inquietação, mais amargura, ansiedade, frustração, desilusão… E os dias vão passando sem conseguir psicanalisar tais sintomas. Os outros (ou quase todos os outros) representam a minha incapacidade de ser outra, a saudade do que passou e o pesar de não poder mudar nada. De não poder mudar o passado, de não poder mudar o presente. De não poder mudar e mudá-los.
O futuro aparece sempre ensombrado pelas memórias do passado e pelas contingências do presente. O futuro que é amanhã e que consiste na permanência no purgatório, na expiação impossível dos pecados cometidos. A luz do inferno ilumina esta caminhada, cada vez mais solitária, em direcção a um paraíso inexistente.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Por dentro sinto-me assim
Burle Marx, EntranhasAgora que o Carnaval acabou é tempo de recuperarmos as máscaras. As máscaras que usamos todos os dias e fazem parte da nossa identidade. Eu, como sempre, em contracorrente, decidi no Carnaval despir a máscara e mostrar as entranhas. Decidi também, e porque gosto e necessito de ser do contra, que vou continuar sem a máscara. Não sei quanto tempo vou aguentar esta exposição (que não é pública, mas mesmo sendo privada…). Necessitava de partilhar a angústia existencial, de partilhar as conclusões do balanço de uma vida a dois, a três, a quatro, e expor as emoções mais pungentes, dilacerantes e torturantes que habitam em mim. Espero sobreviver.
Claro que o espectáculo não é bonito de se ver…
Claro que o espectáculo não é bonito de se ver…
Sr. Comandante
Gustave Courbet, O SonoNão resisto a publicar mais uma imagem de uma célebre pintura de Gustave Courbet . E não resisto sobretudo a partilhá-la com o Sr. Comandante. Considera esta imagem “conteúdo pornográfico”? Ou esta, tendo em conta o conteúdo, é arte para a sua imaginação? E os seus exemplares, ficarão eles mais satisfeitos e motivados para um dia de trabalho? Prometo-lhe que vou imprimir uns cartões com esta imagem e, sempre que apresentar queixa, sempre que necessitar da presença de um agente para por ordem no pardieiro do vizinho, ofereço-a de bom grado como recompensa. E desejo um bom “sono” a todos. É que é de sono que se trata, ou da falta dele, Sr. Comandante.
“Valha-nos Deus”
Gustave Courbet, A Origem do MundoEstes dias acompanhei o acontecimento que vem, depois dos comentários de um Arcebispo acerca do Império dos Sentidos, mais uma vez, e pelo pior motivo, apresentar Braga como a cidade pudica. Gosto especialmente desta palavra, sobretudo quando os pudicos pertencem a uma “sociedade” organizada e se denominam de PSP. Aquilo que mais me espantou foi a argumentação apresentada. Deu-me alguma satisfação e, como cidadã, fiquei a saber que posso recorrer a esta instituição sempre que me sentir “visualmente” ofendida: sempre que me cruzar na rua com um exemplar desta sociedade obscenamente feio, posso apresentar queixa. De imediata o dito exemplar será apreendido e substituído por um “belo” garante da segurança pública. Fiquei a saber que, sempre que os meus valores forem agredidos por imagens incómodas e com “conteúdo pornográfico”, posso apresentar queixa. Já agora, incomodam-me aquelas imagens de “gajas boas”, algumas delas com decotes sugestivos e altamente eróticos (eu não gosto de “gajas”), que passeiam pela cidade à boleia dos TUB. Sempre que, num sinal vermelho, paro atrás de um autocarro com este tipo de publicidade, fico altamente irritada e com dificuldade, até, de olhar para o retrovisor. É que estas “gajas” são um insulto para as comuns mortais que têm de andar de gola alta no Verão. Claro que para tapar um colo que já passou de prazo!!!
Não quero ver mais, na minha cidade, imagens que ponham em causa os meus valores e “bons costumes” e, sobretudo, a minha auto-estima. Senhor Comandante, por favor, considere que estou a apresentar queixa e quero ver apreendidas todas as imagens que possam agredir a minha auto-imagem e, já agora, recicle os seus exemplares que andam na rua. E diga-lhes, também, que arte e pornografia são coisas diferentes. Apresente-lhes o senhor Gustave Courbet e explique-lhes a origem do mundo. Se precisar de ajuda, estou disponível.
Não quero ver mais, na minha cidade, imagens que ponham em causa os meus valores e “bons costumes” e, sobretudo, a minha auto-estima. Senhor Comandante, por favor, considere que estou a apresentar queixa e quero ver apreendidas todas as imagens que possam agredir a minha auto-imagem e, já agora, recicle os seus exemplares que andam na rua. E diga-lhes, também, que arte e pornografia são coisas diferentes. Apresente-lhes o senhor Gustave Courbet e explique-lhes a origem do mundo. Se precisar de ajuda, estou disponível.
E saiba que obsceno, devasso e licencioso é o que se passa todos os dias na minha rua. Mas disso o senhor não quer saber.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Naufrágio de Mim

Sinto-me como uma espécie de tripulante do Titanic: o barco afunda e continuo a dançar. Os tripulantes ainda não sabiam do embate no iceberg e viviam o momento como se este fosse eterno. Eu sei que embati no iceberg e, no entanto, tenho necessidade de continuar a dançar. Uma dança lenta e programada, uma dança que acompanhará o meu esforço de sobrevivência. Como pano de fundo tenho alguns versos de Neruda:
“Pálido mergulhador cego, desventurado fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como os cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.”
“Pálido mergulhador cego, desventurado fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como os cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.”
É a hora de partir, ó abandonada. Abandonada que dança, que rodopia, que estremece, que cai, que se levanta e dança a música d' “A Canção Desesperada”. A dança que tem de ser dançada até ao fim, a dança que não permite desistências. A dança que exige perseverança, determinação e abnegação. A dança que exige sofrimento e solidão. A dança que está para além do desejo, da vontade, da necessidade, do querer, do alento, da fantasia, do sonho e da alma. A alma, essa, degrada-se nos rodopios, nos sobressaltos, nos medos, angústias e pesadelos. A alma que emerge exausta da dança necessita de repousar na noite, na escuridão, no silêncio do abandono e da solidão. O porto onde repousa empurra um oceano de medo, de medo, de medo…
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Homenagem a uma Amiga

Hoje, especialmente hoje, não poderia deixar de partilhar contigo um poema de um livro que me ofereceste quando fiz 19 anos. Conhcíamo-nos há pouco tempo e, no entanto, grande parte daquilo que somos hoje já fazia parte de nós.
Angústia
Tortura do pensar! Triste lamento!
Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz!
-O brilho duma estrela com o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?..."
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
Florbela Espanca
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
A Insustentável Leveza do Ser
Se cada segundo da nossa vida tiver que se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado.
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fálo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza.?
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fálo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza.?
sábado, 24 de janeiro de 2009
Um fim de-semana-diferente
Gosto de ter a cama só para mim.
Gosto de acordar só.
Gosto de, bem cedo, poder abrir a janela e ficar a ler.
Gosto particularmente de ler na cama. Pela manhã.
De Inverno, de Verão, em todas as estações.
Gosto de pegar em todos os livros que tenho na minha mesa-de-cabeceira e ler e reler um pouco de todos.
Claro que não o posso fazer todos os dias. Até porque se o fizesse, era incapaz de parar de ler para ir trabalhar. É um privilégio poder ficar, durante toda a manhã, a ler na cama. É que depois, durante o dia, ficam palavras e imagens a pairar na minha mente, acompanham-me e fazem sentir-me diferente. Durante o dia sinto emoções que passam a ser minhas, reflicto sobre o mundo, os outros, como se a minha identidade se tivesse apropriado da mente de um Musil, de um Dagerman, de um Kafka, de um Oscar Wilde, de um Rainer Rilke, de um Paul Auster, de um Philipe Roth, de um…
O mundo só é aceitável porque existem livros, porque existem palavras que descrevem exactamente aquilo que sentimos e não somos capazes de escrever.
Gosto de acordar só.
Gosto de, bem cedo, poder abrir a janela e ficar a ler.
Gosto particularmente de ler na cama. Pela manhã.
De Inverno, de Verão, em todas as estações.
Gosto de pegar em todos os livros que tenho na minha mesa-de-cabeceira e ler e reler um pouco de todos.
Claro que não o posso fazer todos os dias. Até porque se o fizesse, era incapaz de parar de ler para ir trabalhar. É um privilégio poder ficar, durante toda a manhã, a ler na cama. É que depois, durante o dia, ficam palavras e imagens a pairar na minha mente, acompanham-me e fazem sentir-me diferente. Durante o dia sinto emoções que passam a ser minhas, reflicto sobre o mundo, os outros, como se a minha identidade se tivesse apropriado da mente de um Musil, de um Dagerman, de um Kafka, de um Oscar Wilde, de um Rainer Rilke, de um Paul Auster, de um Philipe Roth, de um…
O mundo só é aceitável porque existem livros, porque existem palavras que descrevem exactamente aquilo que sentimos e não somos capazes de escrever.
Quando leio vou à minha procura, à procura daquilo que sou, daquilo que sinto, daquilo que penso. Vou à procura do meu verdadeiro eu, da minha identidade e, quando me encontro, então aí, a angústia existencial paira levemente sobre mim e o peso de viver torna-se suportável.
Vou dormir. Antes disso vou ler. E depois vou sonhar. Vou sonhar com o livro da minha vida.
Vou dormir. Antes disso vou ler. E depois vou sonhar. Vou sonhar com o livro da minha vida.
Do «Discurso do filósofo sobre a Ignorância»
Foto: Rui BritoÉ devido ao facto de as pessoas saberem tão pouco sobre elas próprias que o seu conhecimento da natureza lhes serve de tão pouco. Sabem a razão porque a pedra cai duma maneira e não doutra quando é arremessada, mas não sabem porque é que o homem que a atira age desta maneira e não de outra. Assim, sabem lidar com os terramotos, mas não com os da sua espécie. Cada vez que me vou embora desta ilha, tenho medo que o barco possa afundar-se na tempestade. Mas no fundo o que temo não é o mar, mas sim aqueles que porventura me poderiam tirar da água.
Bertolt Brecht, Filósofo, in A Compra do Latão, Veja, pág.24
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Para ti, especialmente para ti que não me ouves…
Salvador DalíDe vez em quando, ao olhar para trás, vejo a minha vida como um longo discurso que eu tenho vindo a ouvir. A retórica é umas vezes original, outras agradável, outras balofa (o discurso do incógnito), outras demente, outras objectiva e outras ainda como uma picada de uma agulha, e eu tenho vindo a ouvi-la desde que me lembro: (…). Falar comigo não parece constituir obstáculo para ninguém. Isso é porventura consequência de eu ter passado anos a parecer que precisava de falar com alguém. Mas, seja qual for a razão, o livro da minha vida é um livro de vozes. Quando me pergunto como cheguei onde me encontro agora, a resposta deixa-me surpreendido : «A ouvir».
Philip Roth, Casei Com Um Comunista, Publicações Dom Quixote, pág. 254-255
Philip Roth, Casei Com Um Comunista, Publicações Dom Quixote, pág. 254-255
domingo, 18 de janeiro de 2009
Solidão versus Liberdade (uma das minhas aspirações…)

O hábito da solidão, da solidão sem angústia tinha-se apoderado de mim, e com ele os prazeres de não prestar contas a ninguém e ser livre – paradoxalmente, livre acima de tudo de mim próprio. Durante dias a fio de trabalho e só trabalho, sentia-me invadido por um contentamento voluptuoso. A solidão, a insuportável solidão, era esporádica e controlável: se me acontecia durante o dia, eu levantava-me da minha mesa de trabalho e ia fazer uma caminhada de oito quilómetros pelos bosques ou ao longo do rio, e quando se insinuava à noite punha de lado por algum tempo o livro que estava a ler e ouvia alguma coisa que monopolizasse a minha atenção – alguma coisa como, por exemplo, um quarteto de Bartók. Assim recuperava a liberdade e tornava suportável a solidão. Tudo somado, não sentir necessidade de desempenhar um papel era preferível ao desgaste e agitação e conflito e inanidade e náusea que, à medida que uma pessoa envelhece, podem tornar tudo menos desejáveis as múltiplas relações que enriquecem e preenchem uma vida. (…)
Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, pág. 61-62
domingo, 11 de janeiro de 2009
Consolo II (o que estou a ler)

"Mas não será o nosso coeficiente de dor suficientemente chocante sem a amplificação ficcional, sem dar às coisas uma intensidade que na vida real é efémera e por vezes até invisível? Para alguns, não. Para outros, poucos, muito poucos, essa amplificação, que se desenvolve hesitante a partir do nada, constitui a única segurança, e a vida não vivida, a vida conjecturada, minuciosamente passada ao papel, é aquela que acaba por ser a mais importante."
Philip Roth, O Fantasma sai de cena, Dom Qixote
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Está a nevar… que frio… brrrrrr….

Batem leve, levemente, como quem chama por mim… Sim, estava a nevar!
Um acordar diferente. Levanto-me ou volto para o quentinho?
A beleza do espectáculo contrasta com tudo aquilo que me desagrada nas temperaturas negativas: encolho-me tanto que acabo o dia com dores nas costas.
Um acordar diferente. Levanto-me ou volto para o quentinho?
A beleza do espectáculo contrasta com tudo aquilo que me desagrada nas temperaturas negativas: encolho-me tanto que acabo o dia com dores nas costas.
O desconforto que sinto é maior do que a alegria de desfrutar de uma paisagem rara por estes lados. Prefiro a rotina, a angústia costumeira, as temperaturas positivas, apesar de baixas, a cidade de sempre. As mudanças incomodam-me – deve ser da idade. Já não tenho idade para aguentar este frio.
Há vinte e tantos anos, já não me lembro quantos, não sentia tanto frio. A neve era um prazer e não constituía um obstáculo. As saídas nocturnas continuavam. A maluqueira imperava, fizesse chuva, sol, frio, geada… Sair era um imperativo que não se contrariava. A excepção acontecia pela manhã e outra regra se impunha – nunca ir às aulas com frio, muito menos quando nevasse.
Hoje, a nostalgia do passado tomou conta de mim. Sim, não fui trabalhar. Era muito perigoso conduzir com este tempo. Além disso, não acredito que o frio conserve e também não sou um urso(a) polar.
Há vinte e tantos anos, já não me lembro quantos, não sentia tanto frio. A neve era um prazer e não constituía um obstáculo. As saídas nocturnas continuavam. A maluqueira imperava, fizesse chuva, sol, frio, geada… Sair era um imperativo que não se contrariava. A excepção acontecia pela manhã e outra regra se impunha – nunca ir às aulas com frio, muito menos quando nevasse.
Hoje, a nostalgia do passado tomou conta de mim. Sim, não fui trabalhar. Era muito perigoso conduzir com este tempo. Além disso, não acredito que o frio conserve e também não sou um urso(a) polar.
Not dead

"Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele. Há vezes em que sou obrigado a pôr-me à sua frente e a segurá-lo pelos ombros, quer fugir, quer dar pontapés nos caixotes do lixo e deixá-los espalhados no meio da rua. Seguro-o como se tentasse evitar uma briga. Não faças isso, não vale a pena. Na maior parte do tempo, esse punk está a dormir, sentado num passeio dentro de mim, encostado a uma parede, com as costas tortas, o pescoço torto, inconsciente, bêbado ou drogado com o perfume dos lugares onde vou. Esse punk dentro de mim não os suporta, prefere comer restos abandonados na mesa das esplanadas do que jantar de fato e gravata na casa de príncipes, prefere vomitar aguardente destilada pelo estômago do que ter de responder palavras vazias às palavras vazias dessas conversas. Já houve ocasiões em que esse punk quis puxar a toalha da mesa posta, aquilo que mais desejou foi ver o serviço inteiro de jantar suspenso por um instante no ar da sala e, depois, a desfazer-se no chão.
Esse punk não é uma metáfora ou uma ironia. É um punk a sério. (…)
Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para além da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14 ou 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa a mão pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece. (…)"
José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, Crónica: Verdades quase verdadeiras
Esse punk não é uma metáfora ou uma ironia. É um punk a sério. (…)
Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para além da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14 ou 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa a mão pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece. (…)"
José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, Crónica: Verdades quase verdadeiras
sábado, 3 de janeiro de 2009
Os Amigos
Foto: António Manuel Pinto da SilvaEsses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Lx: Assírio & Alvim, 2006
José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Lx: Assírio & Alvim, 2006
O conflito programa as pessoas
“É desesperante ver como a violência é a escolha por definição das pessoas do Médio Oriente, como em cada encruzilhada escolhemos a violência. Vemos como o conflito programa as pessoas, as condena a agir de forma a eternizar o conflito.”
David Grossman, 54 anos,escritor isrealita, in Público
Ano Novo, a vida de sempre

1- Ano Novo, Vida Nova
2- Ano Novo, Vida Nova
3- Ano Novo, Vida Nova
4- Ano Novo, Vida Nova
5- Ano Novo, Vida Nova
6- Ano Novo, Vida Nova
7- Ano Novo, Vida Nova
8- Ano Novo, Vida Nova
9- Ano Novo, Vida Nova
10- Ano Novo, Vida Nova
11- Ano Novo, Vida Nova
12- Ano Novo, Vida Nova
13- Ano Novo, Vida Nova
14- Ano Novo, Vida Nova
15- Ano Novo, Vida Nova
16- Ano Novo, Vida Nova
17- Ano Novo, Vida Nova
18- Ano Novo, Vida Nova
19- Ano Novo, Vida Nova
20- Ano Novo, Vida Nova
Vinte anos em que a esperança foi sendo renovada. Vinte anos em que se seguiu a desilusão e se concluiu que “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Este é mais um – há esperança, há desejo e, ainda assim, muita angústia.
Os jantares, esses, foram poucos, embora alguns particularmente agradáveis.
2- Ano Novo, Vida Nova
3- Ano Novo, Vida Nova
4- Ano Novo, Vida Nova
5- Ano Novo, Vida Nova
6- Ano Novo, Vida Nova
7- Ano Novo, Vida Nova
8- Ano Novo, Vida Nova
9- Ano Novo, Vida Nova
10- Ano Novo, Vida Nova
11- Ano Novo, Vida Nova
12- Ano Novo, Vida Nova
13- Ano Novo, Vida Nova
14- Ano Novo, Vida Nova
15- Ano Novo, Vida Nova
16- Ano Novo, Vida Nova
17- Ano Novo, Vida Nova
18- Ano Novo, Vida Nova
19- Ano Novo, Vida Nova
20- Ano Novo, Vida Nova
Vinte anos em que a esperança foi sendo renovada. Vinte anos em que se seguiu a desilusão e se concluiu que “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Este é mais um – há esperança, há desejo e, ainda assim, muita angústia.
Os jantares, esses, foram poucos, embora alguns particularmente agradáveis.
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