terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Insustentável Leveza do Ser


Se cada segundo da nossa vida tiver que se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado.
Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.
Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?
O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.
Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fálo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza.?


Milan Kundera, A Insustentàvel Leveza do Ser, Círculo de Leitores, pág.8

sábado, 24 de janeiro de 2009

Um fim de-semana-diferente


Gosto de ter a cama só para mim.
Gosto de acordar só.
Gosto de, bem cedo, poder abrir a janela e ficar a ler.
Gosto particularmente de ler na cama. Pela manhã.
De Inverno, de Verão, em todas as estações.
Gosto de pegar em todos os livros que tenho na minha mesa-de-cabeceira e ler e reler um pouco de todos.
Claro que não o posso fazer todos os dias. Até porque se o fizesse, era incapaz de parar de ler para ir trabalhar. É um privilégio poder ficar, durante toda a manhã, a ler na cama. É que depois, durante o dia, ficam palavras e imagens a pairar na minha mente, acompanham-me e fazem sentir-me diferente. Durante o dia sinto emoções que passam a ser minhas, reflicto sobre o mundo, os outros, como se a minha identidade se tivesse apropriado da mente de um Musil, de um Dagerman, de um Kafka, de um Oscar Wilde, de um Rainer Rilke, de um Paul Auster, de um Philipe Roth, de um…
O mundo só é aceitável porque existem livros, porque existem palavras que descrevem exactamente aquilo que sentimos e não somos capazes de escrever.
Quando leio vou à minha procura, à procura daquilo que sou, daquilo que sinto, daquilo que penso. Vou à procura do meu verdadeiro eu, da minha identidade e, quando me encontro, então aí, a angústia existencial paira levemente sobre mim e o peso de viver torna-se suportável.
Vou dormir. Antes disso vou ler. E depois vou sonhar. Vou sonhar com o livro da minha vida.

Do «Discurso do filósofo sobre a Ignorância»

Foto: Rui Brito
É devido ao facto de as pessoas saberem tão pouco sobre elas próprias que o seu conhecimento da natureza lhes serve de tão pouco. Sabem a razão porque a pedra cai duma maneira e não doutra quando é arremessada, mas não sabem porque é que o homem que a atira age desta maneira e não de outra. Assim, sabem lidar com os terramotos, mas não com os da sua espécie. Cada vez que me vou embora desta ilha, tenho medo que o barco possa afundar-se na tempestade. Mas no fundo o que temo não é o mar, mas sim aqueles que porventura me poderiam tirar da água.


Bertolt Brecht, Filósofo, in A Compra do Latão, Veja, pág.24

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para ti, especialmente para ti que não me ouves…

Salvador Dalí

De vez em quando, ao olhar para trás, vejo a minha vida como um longo discurso que eu tenho vindo a ouvir. A retórica é umas vezes original, outras agradável, outras balofa (o discurso do incógnito), outras demente, outras objectiva e outras ainda como uma picada de uma agulha, e eu tenho vindo a ouvi-la desde que me lembro: (…). Falar comigo não parece constituir obstáculo para ninguém. Isso é porventura consequência de eu ter passado anos a parecer que precisava de falar com alguém. Mas, seja qual for a razão, o livro da minha vida é um livro de vozes. Quando me pergunto como cheguei onde me encontro agora, a resposta deixa-me surpreendido : «A ouvir».

Philip Roth, Casei Com Um Comunista, Publicações Dom Quixote, pág. 254-255

domingo, 18 de janeiro de 2009

Solidão versus Liberdade (uma das minhas aspirações…)





O hábito da solidão, da solidão sem angústia tinha-se apoderado de mim, e com ele os prazeres de não prestar contas a ninguém e ser livre – paradoxalmente, livre acima de tudo de mim próprio. Durante dias a fio de trabalho e só trabalho, sentia-me invadido por um contentamento voluptuoso. A solidão, a insuportável solidão, era esporádica e controlável: se me acontecia durante o dia, eu levantava-me da minha mesa de trabalho e ia fazer uma caminhada de oito quilómetros pelos bosques ou ao longo do rio, e quando se insinuava à noite punha de lado por algum tempo o livro que estava a ler e ouvia alguma coisa que monopolizasse a minha atenção – alguma coisa como, por exemplo, um quarteto de Bartók. Assim recuperava a liberdade e tornava suportável a solidão. Tudo somado, não sentir necessidade de desempenhar um papel era preferível ao desgaste e agitação e conflito e inanidade e náusea que, à medida que uma pessoa envelhece, podem tornar tudo menos desejáveis as múltiplas relações que enriquecem e preenchem uma vida. (…)


Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, pág. 61-62

domingo, 11 de janeiro de 2009

Consolo II (o que estou a ler)


"Mas não será o nosso coeficiente de dor suficientemente chocante sem a amplificação ficcional, sem dar às coisas uma intensidade que na vida real é efémera e por vezes até invisível? Para alguns, não. Para outros, poucos, muito poucos, essa amplificação, que se desenvolve hesitante a partir do nada, constitui a única segurança, e a vida não vivida, a vida conjecturada, minuciosamente passada ao papel, é aquela que acaba por ser a mais importante."


Philip Roth, O Fantasma sai de cena, Dom Qixote

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Está a nevar… que frio… brrrrrr….


Batem leve, levemente, como quem chama por mim… Sim, estava a nevar!
Um acordar diferente. Levanto-me ou volto para o quentinho?
A beleza do espectáculo contrasta com tudo aquilo que me desagrada nas temperaturas negativas: encolho-me tanto que acabo o dia com dores nas costas.

O desconforto que sinto é maior do que a alegria de desfrutar de uma paisagem rara por estes lados. Prefiro a rotina, a angústia costumeira, as temperaturas positivas, apesar de baixas, a cidade de sempre. As mudanças incomodam-me – deve ser da idade. Já não tenho idade para aguentar este frio.
Há vinte e tantos anos, já não me lembro quantos, não sentia tanto frio. A neve era um prazer e não constituía um obstáculo. As saídas nocturnas continuavam. A maluqueira imperava, fizesse chuva, sol, frio, geada… Sair era um imperativo que não se contrariava. A excepção acontecia pela manhã e outra regra se impunha – nunca ir às aulas com frio, muito menos quando nevasse.
Hoje, a nostalgia do passado tomou conta de mim. Sim, não fui trabalhar. Era muito perigoso conduzir com este tempo. Além disso, não acredito que o frio conserve e também não sou um urso(a) polar.

Not dead


"Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele. Há vezes em que sou obrigado a pôr-me à sua frente e a segurá-lo pelos ombros, quer fugir, quer dar pontapés nos caixotes do lixo e deixá-los espalhados no meio da rua. Seguro-o como se tentasse evitar uma briga. Não faças isso, não vale a pena. Na maior parte do tempo, esse punk está a dormir, sentado num passeio dentro de mim, encostado a uma parede, com as costas tortas, o pescoço torto, inconsciente, bêbado ou drogado com o perfume dos lugares onde vou. Esse punk dentro de mim não os suporta, prefere comer restos abandonados na mesa das esplanadas do que jantar de fato e gravata na casa de príncipes, prefere vomitar aguardente destilada pelo estômago do que ter de responder palavras vazias às palavras vazias dessas conversas. Já houve ocasiões em que esse punk quis puxar a toalha da mesa posta, aquilo que mais desejou foi ver o serviço inteiro de jantar suspenso por um instante no ar da sala e, depois, a desfazer-se no chão.
Esse punk não é uma metáfora ou uma ironia. É um punk a sério. (…)
Passamos muito tempo sozinhos, eu e esse punk. Se precisamos um do outro, basta chamarmos. Entendemo-nos bem, sabemos escutar-nos e, para além da idade, somos dois velhos. Ele é um punk velho, que nunca desistiu, que nunca baixou a voz, apesar de tudo o que inventaram para o demover, para mudar o mundo que descobriu com 14 ou 15 anos, ou talvez antes. Eu sou um velho que, entre outras coisas, carrega um punk dentro de si. Ele conhece aquilo que faço quando não o estou a ouvir, ele perdoa-me aquilo que faço contra as suas convicções. Ele finge que não vê, mas vê. E entende. Eu também conheço aquilo que ele faz e que contraria o que diz, que é o exacto oposto daquilo que diz quando se exalta com as pessoas que falam na televisão ou que escrevem nos jornais. Também eu finjo que não vejo, mas vejo. E entendo. Entendo muito bem os instantes em que ele está a tratar de si, despenteado, em que passa a mão pelo rosto, e é como um menino frágil. Esse punk, que grita rouco, que diz que quer matar este e aquele, que quer partir isto e aquilo, é como um menino fràgil, à mercê de mil coisas que o podem matar, partir, e que o matam devagar, que o desgastam, mas às quais ele resiste, porque ele tem memória, ele não esquece. (…)"

José Luís Peixoto, in Jornal de Letras, Crónica: Verdades quase verdadeiras

sábado, 3 de janeiro de 2009

Os Amigos

Foto: António Manuel Pinto da Silva

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis


Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor


José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Lx: Assírio & Alvim, 2006

O conflito programa as pessoas


“É desesperante ver como a violência é a escolha por definição das pessoas do Médio Oriente, como em cada encruzilhada escolhemos a violência. Vemos como o conflito programa as pessoas, as condena a agir de forma a eternizar o conflito.”
David Grossman, 54 anos,escritor isrealita, in Público

Ano Novo, a vida de sempre


1- Ano Novo, Vida Nova
2- Ano Novo, Vida Nova
3- Ano Novo, Vida Nova
4- Ano Novo, Vida Nova
5- Ano Novo, Vida Nova
6- Ano Novo, Vida Nova
7- Ano Novo, Vida Nova
8- Ano Novo, Vida Nova
9- Ano Novo, Vida Nova
10- Ano Novo, Vida Nova
11- Ano Novo, Vida Nova
12- Ano Novo, Vida Nova
13- Ano Novo, Vida Nova
14- Ano Novo, Vida Nova
15- Ano Novo, Vida Nova
16- Ano Novo, Vida Nova
17- Ano Novo, Vida Nova
18- Ano Novo, Vida Nova
19- Ano Novo, Vida Nova
20- Ano Novo, Vida Nova
Vinte anos em que a esperança foi sendo renovada. Vinte anos em que se seguiu a desilusão e se concluiu que “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Este é mais um – há esperança, há desejo e, ainda assim, muita angústia.
Os jantares, esses, foram poucos, embora alguns particularmente agradáveis.