quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quando a realidade supera a ficção…



“Até mesmo ao último dia, o tom das relações de Herzog com Madalena foi bastante sério – ou seja, ideias, personalidades, argumentos, foram respeitados e discutidos. Quando ela lhe deu a notícia, por exemplo, exprimiu-se com dignidade, naquele seu maravilhoso, poderoso estilo. Vira a questão de todos os ângulos, afirmava, e tinha de aceitar a derrota. Não podiam entender-se os dois. Estava preparada para admitir algumas culpas. Claro que Herzog não se encontrava completamente desprevenido. Mas convencera-se de facto de que a situação estava a tornar-se melhor.
(…) Nesta acareação, na salinha em desalinho, duas espécies de egoísmo estavam presentes, e Herzog, do seu sofá, em Nova Iorque, contemplava-os agora – o dela, triunfante (tinha preparado o grande momento, ia fazer aquilo de que mais gostava, dar um golpe), e o dele, na expectativa, todo convertido em passividade. O que ia sofrer, merecia-o; pecara larga e longamente; merecera-o. Aqui estava.
Na janela, em prateleiras de vidro, encontrava-se uma colecção ornamental de pequenas garrafas de vidro. Pertenciam à casa. O sol tocava-lhes agora. A luz penetrava-as. Herzog via as ondas, as linhas de cor, as barras espectrais entrecruzadas, e especialmente uma grande mancha de branco flamejante no centro da parede, sobre Madalena. Esta dizia: - Não podemos viver juntos por mais tempo.
O seu discurso continuou durante vários minutos. As frases eram bem construídas. O seu discurso fora ensaiado e parecia que também ele tinha estado à espera que o espectáculo começasse.
(…)Herzog, na prisão da sua intimidade (…), imaginava o que teria acontecido se, em vez de ouvir tão atenta e passivamente, tivesse esbofeteado Madalena.(…)
Que sucederia se o tivesse feito? Devia ter-lhe rasgado a roupa, arrancado o colar, esmurrado a cabeça. Rejeitou a violência mental, suspirando. Temia ter secretamente tendência para esta espécie de brutalidade. Mas supondo mesmo que lhe tivesse dito a ela para deixar a casa. No fim de contas, era a casa dele. Se não podia viver com ele, porque não partia? O escândalo? Não havia necessidade de fugir a um pequeno escândalo. Teria sido doloroso, grotesco, mas um escândalo era, afinal, uma espécie de serviço feito à comunidade. Somente Herzog nunca se lembrara, naquela pequena sala de garrafas flamejantes, de se manter firme. Pensava talvez que poderia ganhar pela força da passividade, da personalidade, por ser, afinal, Moisés – (…) – um bom homem, e especial benfeitor de Madalena. Fizera tudo por ela – tudo!”

Herzog, Saul Bellow

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