
Sinto-me como uma espécie de tripulante do Titanic: o barco afunda e continuo a dançar. Os tripulantes ainda não sabiam do embate no iceberg e viviam o momento como se este fosse eterno. Eu sei que embati no iceberg e, no entanto, tenho necessidade de continuar a dançar. Uma dança lenta e programada, uma dança que acompanhará o meu esforço de sobrevivência. Como pano de fundo tenho alguns versos de Neruda:
“Pálido mergulhador cego, desventurado fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como os cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.”
“Pálido mergulhador cego, desventurado fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
Que a noite prende a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como os cais na madrugada.
Apenas a sombra trémula se me torce nas mãos.
Ah para além de tudo. Ah para além de tudo.
É a hora de partir. Ó abandonado.”
É a hora de partir, ó abandonada. Abandonada que dança, que rodopia, que estremece, que cai, que se levanta e dança a música d' “A Canção Desesperada”. A dança que tem de ser dançada até ao fim, a dança que não permite desistências. A dança que exige perseverança, determinação e abnegação. A dança que exige sofrimento e solidão. A dança que está para além do desejo, da vontade, da necessidade, do querer, do alento, da fantasia, do sonho e da alma. A alma, essa, degrada-se nos rodopios, nos sobressaltos, nos medos, angústias e pesadelos. A alma que emerge exausta da dança necessita de repousar na noite, na escuridão, no silêncio do abandono e da solidão. O porto onde repousa empurra um oceano de medo, de medo, de medo…
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