domingo, 5 de julho de 2009

Vícios

Coloured_Smoke, Photography by Graham Jeffery

Tenho imensos vícios e imensas dificuldades em ordená-los por ordem de importância. Tem dias que vão ocupando lugares diferentes numa hierarquia que depende essencialmente do meu estado de espírito. Mas o primeiro, o que está em primeiríssimo lugar, é sem dúvida fumar. Maldito vício que me vai matar, um dia…
Tenho o vício de gostar de pessoas que acho que não me merecem (importante juízo de valor, a meu respeito, claro!, porque tenho esta mania de não me consolar com o que a “vida”, caridosamente, me dá e daí a “Angst”, uma angústia resultante da consciência de que valho mais, muito mais, do que aquilo que, acidentalmente, me vão oferecendo). Vivo numa espécie de ansiedade constante à espera de sinais que correspondam aquilo que espero dos outros. A minha exigência elevada resulta numa frustração sofrida e sentida que me deixa inquieta e de péssimo humor. Este último aspecto tem piorado com a idade e receio bem que esteja a tornar-se um vício. Há dias que ocupa o primeiríssimo lugar do pódio e fico com um aspecto de Vasco Pulido Valente, ainda sem a voz rouca etilizada de fumo (ainda não tenho o vício de beber).
Também tenho vícios supostamente saudáveis. Tenho o vício de ler. Mas as preferências levam-me sempre para leituras que agudizam a existencial angústia. A única vantagem é que o sentimento de solidão fica atenuado. Afinal não estou só! Afinal o que sinto padece de uma espécie de universalidade humana. Apesar de só uma pequena percentagem de humanos perder tempo a pensar naquilo que lhe pode provocar uma tal angústia que os leva a desistir de viver. A leitura pode ser, nesta perspectiva, muito prejudicial à saúde. Pode até matar mais depressa que o tabaco. Por isso defendo que alguns livros deveriam ter nas capas avisos semelhantes aos que aparecem nos cigarros “Ler prejudica gravemente a saúde e a dos que o rodeiam”. Parece-me que esta preocupação com aqueles que rodeiam os leitores viciados devia ser levada mais a sério. Muito do meu mau humor resulta da constatação literária de que a vida é uma merda. Quem tem o vício de ler Philip Roth sabe ao que estou a referir-me. E o Roth é um mero exemplo. Há outros. Stig Dagerman, por exemplo. David Lodge tem a particularidade de nos apresentar situações verdadeiramente hilariantes para nos transmitir a mesma ideia – a vida é uma … Ainda assim tem a vantagem de nos fazer rir com vontade antes de ficarmos angustiados. Pode parecer paradoxal, mas o sarcasmo tem muito de deprimente.
Tenho o vício de ouvir música quando conduzo. Até aqui nenhum problema. Este advém do volume que necessito para conseguir concentrar-me na música e desfrutar. A maioria das vezes, alheio-me e não consigo estar atenta à condução. Até hoje não houve nenhuma situação “perigosa”, tirando o facto de o carro poder explodir e eu não dar por nada. Já aconteceram algumas situações caricatas, que poderiam ter resultado em problemas sérios, para mim e para os outros. Também este pode ser um vício perigoso.
Mais vícios – da limpeza, da arrumação, da justiça, da verdade, da… Há dias em que todos se vão sucedendo a um ritmo verdadeiramente alucinante, por uma ordem que nem consigo descrever, e que me fazem sentir como uma “toxicodependente” ciosa de encontrar o seu espaço de arrumação e capaz de organizar todos os estacionamentos num raio de n kms quadrados.
Tenho muitos mais vícios que ainda não analisei devidamente e, por isso, não me atrevo ainda a apresentá-los. Mas sei que, relativamente a alguns, tenho de adoptar uma atitude mais cuidadosa, antes que estes passem a dominar um “eu” já fragilizado por admitir a existência de “vícios”.
Preciso de terapia. Mas sei que me vou viciar no tratamento…

1 comentário:

CarpeDiemaria disse...

Quando te cansares do Ensino, asseguro-te que tens garantida uma coluna diária no "Público"!

Este "Vícios" é do melhor que tens escrito...

Quero mais!