
O hábito da solidão, da solidão sem angústia tinha-se apoderado de mim, e com ele os prazeres de não prestar contas a ninguém e ser livre – paradoxalmente, livre acima de tudo de mim próprio. Durante dias a fio de trabalho e só trabalho, sentia-me invadido por um contentamento voluptuoso. A solidão, a insuportável solidão, era esporádica e controlável: se me acontecia durante o dia, eu levantava-me da minha mesa de trabalho e ia fazer uma caminhada de oito quilómetros pelos bosques ou ao longo do rio, e quando se insinuava à noite punha de lado por algum tempo o livro que estava a ler e ouvia alguma coisa que monopolizasse a minha atenção – alguma coisa como, por exemplo, um quarteto de Bartók. Assim recuperava a liberdade e tornava suportável a solidão. Tudo somado, não sentir necessidade de desempenhar um papel era preferível ao desgaste e agitação e conflito e inanidade e náusea que, à medida que uma pessoa envelhece, podem tornar tudo menos desejáveis as múltiplas relações que enriquecem e preenchem uma vida. (…)
Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena, pág. 61-62
1 comentário:
Fiquei convencida... Essa última frase arrebatou-me!
Vou comprar o livro!
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